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sexta-feira, 9 de março de 2012

PLANO DE ENSIO E PROGRAMA DA DISCIPLINA FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DA CIÊNCIA


DISCIPLINA
 
FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DA CIÊNCIA


2013/1

CARGA HORÁRIA: 60h
 
LOCAL: SALA 11D (PPGE)
HORA: 8h x 12h (2ª a 6ª feira)
CRÉDITOS: 4

PROF. Robson Loureiro
(email robbsonn@uol.com.br)

EMENTA

Análise dos pressupostos subjacentes ao uso da racionalidade empírico-analítica e hermenêutico-dialética em sua relação com paradigmas científico-filosóficos e enfoques teórico-metodológicos de pesquisa quantitativa e qualitativa.

OBJETIVOS
 
  • Analisar alguns dos principais clássicos sobre história e filosofia da ciência;
  • Apropriar-se do debate em torno dos conceitos de ontologia, gnosiologia e epistemologia;
  • Situar a gênese da ciência moderna em sua conjunção histórica e filosófica;
  • Discutir alguns dilemas das perspectivas contemporâneas em relação à ciência e à educação.


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AVALIAÇÃO GERAL

(para escolha individual)

Paper acadêmico - Entregar no início do semestre 2013.1. Enviar apenas por email. Não aceitarei texto impresso. Informações gerais abaixo;

 
Formatação do Paper: mínimo 10, máximo 12 laudas, espaço 1.5, times New-Roman, 12 cm; folha A4; margens 2cm; Conferir ABNT - Livretos da BU-UFES. A temática tem que ser, necessariamente vinculada com as discussões havidas nos encontros e as referências utilizadas.
robbsonn@uol.com.br




 
CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS


ENCONTROS DE INTRODUÇÃO E APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA

DATA: 04 a 8.03.2013 - Texto - Fundamentos filosóficos da ciência: a dialética civilização e barbárie - Aprsentação

TEMÁTICAS A SEREM ABORDADAS
 

EXISTÊNCIA HUMANA E CONHECIMENTO

O sentido do conhecer para o ser humano; a relação entre ontologia e gnosiologia; Introdução às discussões ontológicas, gnosiológicas e epistemológicas e sua relação com a educação – definições de ontologia, gnosiologia e epistemologia.

Leitura básica

MORAES, M.M. de. A teoria tem consequências": indagações sobre o conhecimento no campo da educação. In: http://fundamentosdacienciappgeufes.blogspot.com/ (lado direito da página em Artigos Acadêmicos/Entrevistas).

 
O NASCIMENTO DA CIÊNCIA MODERNA NA EUROPA     

A revolução científica moderna. MORAES, Maria Célia Marcondes de. In: HÜHME, Leda Miranda (Org.). Fazer filosofia. 3. ed. Rio de Janeiro: UAPÊ, 1994, p. 76-96;


ROSSI, Paolo. O nascimento da ciência moderna na Europa. Capítulos 2 e 4 (Fotocopiadora do IC-IV); 
 
CHAUÍ, Marilena. Filosofia e ciência moderna. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/chaui.htm


O ESPÍRITO DAS LUZES


INDICAÇÃO DE LEITURA:


1.TODOROV, Tzvetan. O espírito das luzes. [Tradução de Mônica Cristina Côrrea]. São Paulo: Barcarolla, 1998.


Obs.: As discussões serão em torno do livro em seu conjunto.
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O ADVENTO DAS CIÊNCIAS HUMANAS E A CIÊNCIA NA PERSPECTIVA DA AGENDA PÓS-MODERNA  


PARTE I - O nascimento das ciências humanas e sociais; a visão positivista do século XIX.

INDICAÇÃO DE LEITURA:


CHAUÍ, Marilena. Ciências humanas: é possível as ciências humanas. In: CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1996;

MORAES, Maria Célia Marcondes de. Comte e o positivismo. In: HÜHNE, Leda Miranda. (Org.). Profetas da modernidade: século XIX – Hegel, Marx, Nietzsche, Comte. Rio de Janeiro: UAPÊ: SEAF, 1995. p. 109-147.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Referências/Leituras básicas


Leitura de interesse complementar

EISLER, Riane. O prazer sagrado: sexo, mito e política do corpo. Tradução de Ana Luiza Dantas Borges. Rocco, Rio de Janeiro: 1996, p. 390-395.
 

 TOTAL DE ENCONTROS

20 encontros

 Outras referências


BELARMINO, Cesar. Comunicação e educação na era digital: reflexões sobre estética e virtualização. Disponível em: http://revistacmc.espm.br/index.php/revistacmc/article/viewFile/287/200

CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/convite.pdf

CHAUI, Marilena. Filosofia moderna. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/chaui.htm

DELLA FONTE, S.S; LOUREIRO, R.; MARI, C. Utopia e ética: a contribuição e Thomas Morus. Disponível em: http://www.rizoma.ufsc.br/pdfs/570-of9-st2.pdf

DESCARTES, René. O discurso do método. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/discurso.pdf

GOMES, Luiz Roberto. Teoria crítica e educação política em Adorno. Disponível em: http://www.histedbr.fae.unicamp.br/revista/edicoes/39/art17_39.pdf

GÜZELBERE, Güven. O inconsciente freudiano: sobre os antecedentes filosóficos do conceito de inconsciente. Tradução de Marco Antonio Franciotti. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/guzel.htm

HOPKINS, Jim. Minucioso verbete sobre o inconsciente. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/hopkins.htm

HUME, David. Ensaio sobre o entendimento humano. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/ensaio.pdf

LAPLANHCE; PONTALIS. Verbete sobre o inconsciente. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/laplanche.htm

MORUS, Thomas. Utopia. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/utopia.pdf

ROTTERDAM, Erasmus. Elogio da loucura. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/utopia.pdf

ROUDINESCO, Elizabeth.; PLON, Michel. Verbete histórico sobre o inconsciente. Disponível em:  http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/roudi.htm.

ZUIN, Antonio Álvaro Soares.  O Orkut e as representações dos alunos sobre os professores. Disponível em: http://www.periodicos.proped.pro.br/index.php?journal=revistateias&page=article&op=viewFile&path%5B%5D=373&path%5B%5D=354



























 

Sobre o fetichismo da mercadoria - Ciência x Sociedade

video

Mulher procura homem que ganhe mais de U$500,000,00 por ano

Saiu no Financial Times (maior jornal sobre economia do mundo).
Uma moça escreveu um email para o jornal pedindo dicas sobre "como arrumar um marido rico".
Contudo, mais inacreditável que o "pedido" da moça, foi a disposição de um rapaz que, muito inspirado, respondeu à mensagem, de forma muito bem fundamentada. Sensacional!
Leiam...
E-mail da MOÇA:
"Sou uma garota linda (maravilhosamente linda) de 25 anos. Sou bem articulada e tenho classe. Estou querendo me casar com alguém que ganhe no mínimo meio milhão de dólares por ano. Tem algum homem que ganhe 500 mil ou mais neste jornal, ou alguma mulher casada com alguém que ganhe isso e que possa me dar algumas dicas?
Já namorei homens que ganham por volta de 200 a 250 mil, mas não consigo passar disso. E 250 mil por ano não vão me fazer morar em Central Park West. Conheço uma mulher (da minha aula de ioga) que casou com um banqueiro e vive em Tribeca! E ela não é tão bonita quanto eu, nem é inteligente. Então, o que ela fez que eu não fiz? Qual a estratégia correta? Como eu chego ao nível dela? (Raphaella S.)"
Resposta do editor do jornal:
"Li sua consulta com grande interesse, pensei cuidadosamente no seu caso e fiz uma análise da situação. Primeiramente, eu ganho mais de 500 mil por ano. Portanto, não estou tomando o seu tempo a toa... Isto posto, considero os fatos da seguinte forma: Visto da perspectiva de um homem como eu (que tenho os requisitos que você procura), o que você oferece é simplesmente um péssimo negócio.
Eis o porquê: deixando as firulas de lado, o que você sugere é uma negociação simples, proposta clara, sem entrelinhas : Você entra com sua beleza física e eu entro com o dinheiro.
Mas tem um problema.
Com toda certeza, com o tempo a sua beleza vai diminuir e um dia acabar, ao contrário do meu dinheiro que, com o tempo, continuará aumentando.
Assim, em termos econômicos, você é um ativo sofrendo depreciação e eu sou um ativo rendendo dividendos. E você não somente sofre depreciação, mas sofre uma depreciação progressiva, ou seja, sempre aumenta! Explicando, você tem 25 anos hoje e deve continuar linda pelos próximos 5 ou 10 anos, mas sempre um pouco menos a cada ano. E no futuro, quando você se comparar com uma foto de hoje, verá que virou um caco. Isto é, hoje você está em 'alta', na época ideal de ser vendida, mas não de ser comprada.
Usando o linguajar de Wall Street , quem a tiver hoje deve mantê-la como 'trading position' (posição para comercializar) e não como 'buy and hold' (compre e retenha), que é para o quê você se oferece... Portanto, ainda em termos comerciais, casar (que é um 'buy and hold') com você não é um bom negócio a médio/longo prazo! Mas alugá-la, sim! Assim, em termos sociais, um negócio razoável a se cogitar é namorar. Cogitar... Mas, já cogitando, e para certificar-me do quão 'articulada, com classe e maravilhosamente linda' seja você, eu, na condição de provável futuro locatário dessa 'máquina', quero tão somente o que é de praxe: fazer um 'test drive' antes de fechar o negócio... podemos marcar?".
(Philip Stephens, associate editor of the Financial Times - USA)
OBS.: Será por que, o cara ganha mais de US$ 500.000 por ano?!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Os foguetes ainda são newtonianos - Roberto LOBO



Descrição: Opinião


Roberto Lobo 
Folha de São Paulo, 26.01.2012
Os foguetes ainda são newtonianos
Ao contrário das afirmações sensacionalistas, Newton e Einstein não estavam errados; as novas descobertas da física só são observadas em escalas extremas. Se eu me apoiar em uma parede, eu vou pressioná-la, e ela vai reagir fazendo uma força igual e oposta à força que eu fazia sobre ela. É isso que me impede de cair. Trata-se da terceira lei de Newton, que aprendemos na escola.
Se confirmada a experiência de que os neutrinos podem viajar a uma velocidade superior à da luz, a terceira lei de Newton deixará de ser verdadeira? Deixará de ser válida qualquer outra lei conhecida e de uso cotidiano? O que significam manchetes questionando se estamos passando por uma "revolução na ciência" ou se "Einstein estava errado"?
As profundas mudanças ocorridas na ciência no último século se referem a fenômenos que, em sua quase totalidade, só são observáveis em escalas microscópicas, a enormes distâncias ou a grandes velocidades. Eles não são observáveis sem equipamentos modernos muito especiais.
Os resultados da lei da gravidade, por exemplo, só se modificaram com as novas descobertas para distâncias astronômicas. Um exemplo é a órbita de Mercúrio ao redor do Sol. Ela não é exatamente periódica, em razão da atração de outros astros (fenômeno que já era conhecido antes de Einstein), que faz com que o ponto de maior aproximação do planeta com o Sol se desloque a cada rotação.
No entanto, os cálculos da época não coincidiam com as medições, havendo uma diferença de 1% entre eles. Quando foi aplicada a relatividade geral de Einstein, tornou-se possível corrigir os cálculos anteriores em 25 milionésimos de grau por rotação (e uma volta tem 360 graus!), fazendo teoria e experiência coincidirem. A relatividade restrita de Einstein também só modifica as leis de Newton para velocidades próximas à velocidade da luz. Por exemplo: a estrela mais perto de nós, a Próxima da constelação do Centauro, está a cerca de quatro anos-luz, que é a distância que a luz percorre em quatro anos.
Um foguete que viajasse a uma velocidade de 10 mil quilômetros por hora (mais de dez vezes a velocidade de um Airbus) levaria 400 mil anos para chegar à estrela Próxima. Por isso, até nossos foguetes ainda são newtonianos!
O desenvolvimento da tecnologia permite medidas muito mais refinadas e tem trazido desafios à ciência, pois fenômenos que antes eram inobserváveis nem sempre estão de acordo com as previsões teóricas baseadas em experiências menos extremas. Novas teorias são necessárias para explicá-los.
No entanto, elas só alteram os resultados nesses limites, sendo esse, aliás, um dos critérios de consistência para essas novas teorias. Ou seja, aquém desses limites as novas teorias devem reproduzir os resultados das observações clássicas.
É por isso que tudo que Einstein provou continuará válido para situações em que a relatividade é necessária, seja qual for o resultado da experiência com os neutrinos.
Afirmações sensacionalistas sobre as novas descobertas não ajudam a sociedade a compreender a evolução da ciência. Essa evolução, ao contrário do que parece, é fortalecida quando surgem novas descobertas, pois elas ampliam os limites de compreensão da natureza.

ROBERTO LOBO, 73, doutor em física pela Purdue University (EUA), é professor titular do Instituto de Física de São Carlos da USP, ex-reitor da mesma universidade e presidente do Instituto Lobo
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

domingo, 2 de outubro de 2011

EINSTEIN ERROU?

EINSTEIN ERROU? (GLEISER, Marcelo - FSP, 02.10.2011)

Einstein errou?

Muitos sonham em desmentir o genial físico alemão; por enquanto, porém, suas teorias, que inspiraram tecnologias como laser e GPS , resistem ao teste do tempo


MARCELO GLEISER
COLUNISTA DA FOLHA

Esta semana marcou o 106º aniversário da publicação do artigo de Einstein com a famosa fórmula E=mc2, talvez a mais famosa da física. Aos 26 anos, Einstein redefiniu nossa compreensão da matéria, mostrando sua íntima relação com a energia. O elo da correspondência é a velocidade da luz, representada pelo "c", com um valor aproximado de 300 mil km/s. Você pisca o olho e a luz dá sete voltas e meia em torno da Terra. Segundo a teoria da relatividade, nada na natureza pode viajar mais rápido do que a luz: qualquer objeto com massa, de um elétron a um cometa, necessariamente deve viajar com uma velocidade mais baixa do que "c". Porém, vimos recentemente cientistas dos laboratórios europeus Cern, em Genebra, na Suíça, e Gran Sasso, na Itália, anunciando a detecção de partículas com velocidades maiores que a da luz.

FANTASMAGÓRICAS
As partículas são neutrinos, conhecidas como "partículas-fantasmas" devido à sua fraca interação com a matéria: neutrinos atravessam paredes, pessoas e planetas como se não existissem, apenas raramente colidindo com outras partículas. Os experimentos começam criando neutrinos no Cern. Depois, eles viajam 730 quilômetros através da crosta terrestre até chegar aos detectores em Gran Sasso. Embora o porta-voz da experiência tenha afirmado que o processo é simples, que basta dividir distância por tempo para obter a velocidade, na prática a coisa é bem mais complicada. De fato, a maioria absoluta dos físicos vê os resultados com muito ceticismo, duvidando que sobrevivam por muito tempo. Ou, claro, pode ser que os neutrinos tenham viajado mesmo algumas dezenas de bilionésimos de segundo mais rápido do que as partículas da luz. Mas eu não apostaria nisso. O que acho interessante é o burburinho que surge cada vez que um cientista crê demonstrar que Einstein errou. Cientistas têm o dever de testar teorias. Dada a profundidade das teorias de Einstein, achar uma falha numa delas pode revolucionar a nossa compreensão do mundo natural. Esse tipo de ceticismo é vital para o funcionamento da ciência.

MATURAÇÃO LENTA
Muitas vezes, uma teoria demora a maturar. De volta a Einstein, esse foi o caso com a sua teoria da relatividade geral, a que relaciona a atração gravitacional com a curvatura do espaço. A teoria foi desenvolvida aos poucos, entre 1907 e 1915, até Einstein chegar à sua versão final. Afirmar que Einstein deu passos "errados" no meio do caminho é ignorar o processo criativo dos cientistas; a ciência não anda numa linha reta entre dois pontos. Ela meandra aqui e ali até chegar ao seu objetivo. Que eu saiba, os resultados principais de Einstein estão todos ainda conosco e continuam a inspirar novas pesquisas, sem falar nas tecnologias "einstenianas" do cotidiano. Mesmo que, um dia, algumas das ideias de Einstein sejam suplantadas por novas teorias-e isso deve acontecer -, dizer que ele estava errado é no mínimo ingênuo. Será que podemos dizer que Newton estava errado quando Einstein corrigiu suas teorias? Certamente não! Toda teoria deve ser aplicada dentro do seu limite de validade: julgá-la errada quando aplicada fora desses limites é não saber como usá-la.
O próprio Einstein considerou uma de suas ideias como o "maior dos seus erros", a adição da chamada constante cosmológica às equações descrevendo a geometria do Universo.
Em 1931, Einstein visitou o astrônomo Edwin Hubble no observatório do monte Wilson, na Califórnia, e teve a oportunidade de ver o desvio para o vermelho da luz emitida por galáxias distantes. A interpretação mais imediata desse desvio é a expansão do Universo, isto é, que as galáxias estão se afastando umas das outras a altas velocidades. Em 1917, Einstein havia escrito um artigo onde supõe que o Universo é estático, sem expansão alguma.
Para isso, teve de adicionar a constante cosmológica, que garante a solução estática que queria. O resultado de Hubble mostrou que sua suposição não era necessária.

REVIRAVOLTA
Ironicamente, em 1998, astrônomos descobriram que o Universo está em expansão acelerada, efeito que pode ser causado justamente pela constante cosmológica de Einstein. A natureza tem razões que a razão desconhece. Outro "erro" de Einstein é sua posição com relação à mecânica quântica, que descreve as partículas da matéria. Ele nunca aceitou que, conforme dizia essa área da física, a realidade tivesse um forte componente aleatório. Até hoje, nada de anormal foi encontrado com a mecânica quântica. Em defesa de Einstein, não houve aqui um erro, mas uma diferença filosófica na sua visão de mundo. É prematuro julgar se sua posição está certa ou errada. A lição aqui me parece simples: é bom termos cuidado ao julgar teorias a partir de resultados recentes e com pouco escrutínio. Afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias. Embora o questionamento constante seja vital para a ciência avance, as trombetas da revolução só devem ser soadas após a revolução ter mesmo começado.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". ook: http://goo.gl/93dHI

Chile em transe

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Anatomia do Ego



São Paulo, domingo, 25 de setembro de 2011 

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/images/ilusbar.gif


CIÊNCIA

Anatomia do ego


O cérebro decifrado por Damásio e Nicolelis


RESUMO

1º§ Dois neurocientistas compõem retratos do cérebro como um órgão ainda mais complexo e maleável do que se pensava: enquanto o brasileiro Miguel Nicolelis busca implantes cerebrais para tentar fazer paraplégicos andarem, o português António R. Damásio quer ir mais longe e descobrir os mistérios da consciência.

MARCELO LEITE

2º§EM CONDIÇÕES NORMAIS, seria descabido citar numa mesma resenha o último livro do português António R. Damásio e o do brasileiro Miguel Nicolelis. A primeira obra de divulgação de Nicolelis, "Muito Além do Nosso Eu", é um bom trabalho. Damásio, por sua parte, escreveu mais uma obra-prima: "E o Cérebro Criou o Homem".

3º§ Há muitas razões para reuni-los, e não só pelo fato de ambos terem o português como língua materna e escreverem em inglês. Damásio e Nicolelis são exemplos excepcionais de pesquisadores da periferia que venceram na arena mais sangrenta da ciência mundial, os Estados Unidos. Confirmam, com isso, a regra de que emigrar é o primeiro passo na senda do sucesso e da fama em ciência natural.
4º§ Nicolelis tornou-se uma celebridade no Brasil. "Voltou" ao país para fundar o Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), na periferia da periferia -voltou entre aspas, pois seu domicílio principal ainda é Durham, na Carolina do Norte, onde detém cátedra na Universidade Duke.
5º§ Tem bom trânsito na cúpula petista. Leva plateias às lágrimas quando promete o pontapé inicial da Copa de 2014 por um brasileirinho paraplégico metido num exoesqueleto. Protagonizou o mais rumoroso rififi da pesquisa nacional em tempos recentes: um racha no embrionário IINN-ELS, que levou à migração de seus principais cientistas para a Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
6º§ A boa surpresa é que Nicolelis, entre tantas idas e vindas, produziu um livro interessante, culto e informativo. Não sem problemas, como tudo. E eles começam pelo subtítulo: "A nova neurociência que une cérebro e máquinas e como ela pode mudar nossas vidas".
7º§PENSAMENTO SÍMIO Nicolelis notabilizou-se como pesquisador porque seu grupo conseguiu fazer macacos moverem robôs "só com a força do pensamento": microeletrodos inseridos no cérebro do animal amostram sinais elétricos que, interpretados por computadores, reproduzem nas máquinas movimentos harmoniosos comandados pelo símio.É uma façanha e tanto. Pode não ser suficiente para ganhar um Nobel -o tempo dirá. E por certo é insuficiente para funcionar como princípio explicativo da "nova neurociência", que mal começa a orientar-se no labirinto da malfadada dicotomia mente-cérebro. Serve, contudo, como fio condutor de uma história cativante.
8º§ Para fazer funcionar e para explicar os feitos de seu aparato biônico, Nicolelis toma partido em favor dos "distribucionistas" de Thomas Young [1773-1829], contra os "localizacionistas" de Franz Joseph Gall [1758-1828]. Ou seja, o cérebro não se reduz a um mosaico de módulos especializados (visão, tato, linguagem etc.), muito menos a uma coleção de neurônios correspondentes a objetos únicos.
9º§Opera mais como uma orquestra: timbres, sons, notas e ritmo compõem o concerto de vozes e naipes que constitui uma sinfonia. "Muito Além do Nosso Eu" [trad. Miguel Nicolelis, 552 págs., R$ 39,50] se abre com uma bela narrativa sobre música, conhecimento e ciência, a partir de um episódio vivido pelo autor quando ainda estudante na Faculdade de Medicina da USP.
10º§ A homenagem ao mentor César Timo-Iaria convoca a ópera "Parsifal", de Richard Wagner, para introduzir o funcionamento do cérebro como um processo sinfônico. Cada sucessão de pensamentos, percepções, imagens ou ordens motoras corresponde à ativação (disparos simultâneos) de populações de neurônios em diversas partes do órgão.
11º§ À metáfora operística segue-se a política: populações podem produzir eventos espantosamente coordenados, como o comício do movimento Diretas Já em 16 de abril de 1984, na praça da Sé paulistana.

12º§De analogia em analogia, a narrativa de Nicolelis flui sem maiores impedimentos (a não ser por tropeços aqui e ali, como uma anedota deslocada sobre o tenor italiano Enrico Caruso e o presidente americano Ted Roosevelt). Quase leva o leitor a esquecer que está diante, ainda assim, de uma árida aula de neuroanatomia e neurofisiologia.

13º§ MOTOR CENTRAL Lição enviesada, porém. Em que pese o esforço perceptível de oferecer visão abrangente do funcionamento do cérebro, Nicolelis não chega a compor uma explicação da mente conciliável com a experiência interior de quem o lê -e que busca na literatura de divulgação sobre neurociência justamente a oportunidade de ir um pouco além do próprio eu.
14º§Tudo, no livro, acaba girando em torno do tema da motricidade, que afinal é a área de especialidade do pesquisador da Duke. A concepção de um cérebro não compartimentado e plástico (em constante adaptação), mesmo que em perfeita sintonia com a neurociência contemporânea, serve a um propósito mais pragmático que elucidativo: promover o programa de pesquisa de Nicolelis como a revolução que (ainda não) é.

Tendo demonstrado e utilizado experimentalmente a incorporação de objetos exteriores (instrumentos, próteses, robôs) ao esquema mental do organismo primata, o autor parece encará-la como princípio organizador e até como razão de ser do cérebro.
15º§"Acredito que essa fome do cérebro por incorporar ferramentas abrirá um novo capítulo na evolução", escreve, "oferecendo-nos meios de estender nossos corpos, alcançando talvez a imortalidade, de uma maneira muito particular: preservando nosso pensamento para a posteridade."
16º§ Em lugar de morte cerebral, vamos todos um dia brindar o "upload" de nossos egos numa máquina. Pode ser. Mas isso está muito além -demasiado além- do nosso eu, aqui e agora, em geral atormentado por coisas menos devastadoras que paralisia, cegueira ou surdez, como lembranças ruins, compulsão por comida ou drogas, depressão.
17º§Damásio prefere andar para trás, no passo da evolução por seleção natural, o que lhe permite alcançar explicações a um só tempo mais modestas e mais portentosas. Seu olhar é retrógrado, e sua engenharia, reversa. O subtítulo de seu livro, em inglês, trai o escopo ambicioso: "Construindo o cérebro consciente" -já o título inspirado, "Self Comes to Mind", foi vertido pela editora brasileira como um pobre "E o Cérebro Criou o Homem". O livro chega no final de outubro às livrarias brasileiras, pela Companhia das Letras [trad. Laura Motta, 416 págs., R$ 49].
18º§ BRAÇOS-FANTASMAS Curiosamente, os dois autores dedicam muitas páginas e um lugar central nas respectivas obras ao intrigante fenômeno neurológico dos membros-fantasmas (e a maneira ainda mais intrigante de tratá-lo, com uma caixa de espelhos). Pessoas amputadas não só podem manter a percepção de membros perdidos como experimentar sensações concretas nele, por exemplo coceira e dores lancinantes. (Um terceiro livro, "Proust Foi um Neurocientista - Como a Arte Antecipa a Ciência", do jornalista americano Jonah Lehrer, também se debruça sobre essas e outras fantasmagorias, como a concepção de memória do escritor francês, e propicia leitura bem mais leve.)
19º§ Seria um fiasco tentar reproduzir aqui, em poucas linhas, a complexidade do distúrbio e da cura; além disso, iria desmanchar parte do prazer do leitor de Nicolelis e Damásio. Basta dizer que os membros-fantasmas dão testemunho da refinada capacidade do cérebro de mapear e monitorar, a todo instante, estado e posição de cada parte do corpo. Mais ainda, uma capacidade de sintetizar a miríade de sensações e informações que permitirá a emergência evolutiva de um "self" e depois de um "eu autobiográfico".
20º§ Em biologia, recorda Damásio, não existe lugar para dicotomias como corpo/mente. Há que entender o contínuo de complexidade que evolui dos automatismos do sistema nervoso de uma medusa e passa por vários graus de "senciência" (como diria o bioeticista Peter Singer) até a barroca mescla de imagens, memórias e conceitos que caracteriza a consciência.

21º§ Na sua versão completa, esta faculdade superior só existe em humanos, mas é fácil reconhecer seus componentes e precursores em outros primatas, cães e golfinhos, entre outros.

22º§ CORPO X MENTE Na base de todos os fenômenos mentais está a sobrevivência, ou o que o pesquisador português chama de regulação homeostática (equilíbrio do organismo com o meio). Neurônios são células especiais, porque seu metabolismo propicia reter, transmitir e processar informação, mas nem por isso deixam de ser células e de ter metabolismo. A mente só faz sentido e só pode funcionar na companhia de um corpo que sente, reage e atua. O valor fundamental é biológico; mesmo quando a consciência e a cultura emergem, sua meta é a de uma vida melhor (ou deveria ser).
23º§ O bonito da obra de Damásio está em apontar o correlato dessa perspectiva unicista -cuja inspiração ele busca em Baruch Spinoza [1632-1677], contra René Descartes [1596-1650]- na própria anatomia conectiva do cérebro e na arquitetura da mente, que para ele remontam ao mesmo. O pensamento nasce ele próprio corporal, fibroso.
24º§ O "self" mais primitivo se compõe de meras "disposições", aquilo que o corpo sente na presença de certos objetos e situações, disposições essas integradas por meios das estruturas mais antigas do cérebro, como o tronco cerebral e o hipotálamo. A elas vão se somando, sobretudo na evolução dos mamíferos, funções mais complexas como imagens (representações detalhadas de objetos por redes de neurônios no córtex cerebral), sentimentos (representações de emoções) e memória (recuperação de representações), às quais Damásio vai correlacionando estruturas e redes de estruturas encefálicas.

25º§ MARCAS INESQUECÍVEIS Surge para os olhos da mente do leitor, aos poucos, um modelo -complicado e conjectural, mas um modelo- sobre como opera seu próprio cérebro. Nesse modelo, o "eu" mais primitivo das disposições não desaparece nem é relegado a funções subalternas.
26º§ Ao contrário, constitui uma peça-chave na capacidade de recuperar memórias e integrá-las na narrativa coerente, ou quase, que articula o que se poderia chamar de "eu consciente" (ou autobiográfico). Sem esse "self nuclear", seríamos incapazes de orientar nossa conduta no mundo com base num conjunto de imagens interiores.
27º§ Para Damásio, as emoções mais fundamentais associadas com os objetos e acontecimentos permanecem como as marcas que permitem reativar os circuitos de neurônios corticais que representam esses objetos e acontecimentos. O fio da meada, por assim dizer. É mais prudente aqui dar a palavra ao próprio autor, sob pena de empobrecer sua prosa esclarecedora: "[...] as fundações do processo de consciência são os processos inconscientes a cargo da regulação da vida - as disposições cegas que regulam funções metabólicas e estão alojadas nos núcleos do tronco cerebral e do hipotálamo; as disposições que oferecem recompensa e punição e promovem impulsos, motivações e emoções; e o aparato mapeador que fabrica imagens, na percepção e na recordação, e que pode selecionar e editar tais imagens no filme conhecido como mente. A consciência é só a última a chegar para o gerenciamento da vida, mas leva todo o jogo uma etapa adiante. Espertamente, ela mantém os velhos truques à mão e deixa que eles façam o trabalho mais pesado".
28º§ Nesta altura, com a entrada em cena do tema do inconsciente, o leitor já estará pensando em Sigmund Freud ou no tópico não menos abrasador da responsabilidade moral. Não são poucos os que, movidos talvez pela dificuldade de manter as rédeas do próprio "self", cedem à compulsão de gritar "fogo" no inseguro edifício civilizatório, quer dizer, arriscam lançar a questão subversiva: se o que tomamos por decisões e comportamentos conscientes são no fundo ditados por disposições inconscientes, como exigir a responsabilização de qualquer sujeito por seus atos?

29º§ ILUSÃO DE ÉTICA Damásio não foge da dificuldade, e sua resposta vem dura e brilhante: a consciência não é um epifenômeno inútil ou manifestação ilusória da complexidade cerebral. Quem assim pensa se esquece de que o aparente automatismo das disposições inconscientes é também ele produzido e canalizado pelo histórico de decisões, emoções e ações que constituem o eu autobiográfico.
"Comportamentos morais são um conjunto de habilidades adquirido no curso de repetidas sessões de prática e ao longo de muito tempo, informado por princípios e razões conscientemente articulados e, no mais, inscrito como 'segunda natureza' no inconsciente cognitivo", ensina o autor.
30º§ Estamos aqui, já se vê, muito além das máquinas e dos determinismos -de volta à intricada anatomia do ego. Embora Nicolelis também extraia da neurociência uma mensagem de libertação e transcendência, ele a terceiriza para a tecnologia: máquinas conectadas ao cérebro rebentarão os grilhões que ainda ancoram o humano no animal.
31º§ Apesar de todo o seu patriotismo progressista e futebolístico, Nicolelis resulta pouco brasileiro na sua expectativa prometeica e tecnocientífica. O Brasil, mais afeito aos atalhos do jeitinho do que à disciplina laboriosa do conhecimento sistemático, precisa de mais cientistas e divulgadores como ele ou Marcelo Gleiser. Gente capaz de pôr na ordem do dia e no imaginário das pessoas, pela força do exemplo de sucesso no exterior, coisas tão complexas quanto a neurofisiologia e a física.
32º§ A neurociência propriamente dita, de sua parte, carece mais de figuras ousadas como o muito português Damásio. Este nos desafia a novos descobrimentos e convoca à aventura de buscar a libertação "da tirania das respostas imediatas" do cérebro com auxílio do maior legado da natureza para a humanidade: "Talvez a capacidade de navegar o futuro nas águas de nossa imaginação, guiando a embarcação do 'self' para um porto seguro e produtivo".

A concepção do cérebro não compartimentado e plástico serve a um propósito pragmático: promover o programa de pesquisa de Nicolelis como a revolução que (ainda não) é.

Damásio prefere andar para trás, no passo da evolução por seleção natural, o que lhe permite alcançar explicações a um só tempo mais modestas e mais portentosas
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O Brasil, mais afeito aos atalhos do jeitinho do que à disciplina do conhecimento sistemático, precisa de mais cientistas e divulgadores como Nicolelis ou Gleiser.
A neurociência mais carece de figuras ousadas como Damásio, que nos desafia a novos descobrimentos e a buscar a libertação "da tirania das respostas imediatas" do cérebro.

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